A utopia da imparcialidade jornalística

Uma realidade imaginada nem sempre é uma mentira. Ao contrário das mentiras, uma realidade imaginada é algo em que a grande maioria acredita, e, enquanto essa crença compartilhada persiste, exerce influência por onde alcança. Desde a Revolução Cognitiva, há 70 mil anos, marcada pela criação da linguagem ficcional – citada no início deste livro – as realidades imaginadas e os mitos foram importantes para o desenvolvimento da humanidade. Mitos podem ser benéficos, mas também podem devastar. Importante é compreender que quase nada na evolução do homo sapiens como líder de um planeta de tamanha multiplicidade foi livre de mitos. Muito menos imparcial. O jornalismo não nasceu com estrela na testa para ser diferente. A ilusão sobre a imparcialidade é apenas outra metanarrativa plantada por estratégia e conveniência.

O não reconhecimento dessa parcialidade justamente por interessados em afirmar imparcialidade não é mera vicissitude. Na verdade, aquilo que muitos chamam de virtude, não é, via de regra, senão um fantasma formado por nossas paixões, ao qual as pessoas dão um nome honesto para impunemente fazerem o que quiserem.

A imparcialidade jornalística é tão inatingível quanto a invisibilidade. Mais um mito como os inventados pelos primeiros humanos a fim de persuadir e manipular indivíduos à cooperação (via crença) em maior número, assim como promover inovações em seu comportamento social. Das religiões ao universo político, os mitos, estes sim, são certezas viventes e pulsantes. Não seria necessário um martelo para desconstruir quem tem pés de barro tão evidentes.

Um jornalista antes de ser jornalista é um ser humano. É o que afirma a ciência, contrariando a crença de uma extensa gama de indivíduos da área que, após adquirirem o poder da informação, creem terem sido elevados ao campo celestial. Em termos científicos, o DNA de um jornalista (pasme) não difere do padrão biológico dos demais indivíduos da espécie humana, com direito a todas as naturais diferenças. São nestas distinções que fervem os protagonistas da parcialidade como crenças, valores, convicções, regras, apetites, ideologias, traumas, temores, e, principalmente, afetos, que sucessivamente influenciarão o padrão de análise e interpretação de um mesmo fato. Ao contrário das retóricas ilusionistas, um axioma indiscutível. A prova é que cada veículo de imprensa atua numa linha editorial específica em sistema de ideias, linguagem, relações mercadológicas e política de classes.

Não resta dúvida de que quando um jornalista se afirma imparcial já demostra sua evidente parcialidade. Professar-se assim é declarar um posicionamento em favor de si mesmo. Tomar partido é ser parte. Um segundo ângulo ilumina e confirma ainda mais o ponto de vista ontológico do debate. Investigar, debulhar, entender, optar, formatar e publicar uma notícia já constitui um ato de total parcialidade, visto que cada um utiliza sua maneira peculiar e individual de fazê-lo.

Como qualquer jornalista é movido por uma série de correlações cognitivas e afetivas inerentes ao ser, estas o induzem a optar por fatores que, como uma impressão digital, individualizam e escravizam a construção ideológica da notícia como consequência desse conjunto: a fonte que acredita (ou não) ser a mais confiável, a perspectiva de imagem que considera melhor, a pauta que entende ser mais interessante e inclusive o viés linguístico (tom, expressão e palavras) que por si só corrói toda a imparcialidade através de uma liberdade aprisionada, como um golfinho num aquário. Um dos mais respeitados filósofos do século XIX, minucioso em linguagem e comunicação, Mikhail Bakhtin, disse o seguinte:

“O sistema linguístico é produto de uma reflexão sobre a língua, reflexão que não procede da consciência do locutor nativo e que não serve aos propósitos imediatos da comunicação”.

A compreensão da palavra no seu sentido particular depende da orientação que lhe é conferida por um locutor num contexto e situação precisos. Se considerarmos ainda que os vocábulos, como mostrou Albert Mehrabian, pioneiro da pesquisa da linguagem corporal na década de 50, constituem apenas cerca de 7% da mensagem (somente palavras), pois 38% é vocal (incluindo tom de voz, inflexão e outros sons) e 55% é não-verbal, como afirmar imparcialidade em consequência de tantas decisões particulares subjetivas, conscientes e inconscientes, crenças, constituições biológicas, emocionais e ideologias? Se cada profissional imprime seu perfil único ao entalhar a arquitetura da notícia, como noticiar sem deixar uma digital?

Quando um veículo escolhe entre um universo de fatos aqueles que serão manchete, destaque, evidência ou não, e, principalmente, o que sequer será citado, lembrado ou informado ao público, influencia assim o sistema referencial de avaliação de cada pessoa. Alegar qualquer exígua possibilidade de imparcialidade é confessar interesse, sordidez ou mergulhar num abismo pitoresco.

A imagem, por exemplo, será sempre refém do ângulo escolhido pelo operador, podendo este criar a interpretação que deseja no espectador ao exercer sua preferência (opção). Um gostar singularmente seu, absoluto e parcial. A música, o título, conteúdo e o que considera mais relevante não são parte do fato, mas decisões do jornalista de como e até por quantas vezes usar; ou não usar. Construir uma matéria é criar, e quem cria é a parte criadora.

Como ser imparcial sendo humano? Como não ser parte naquilo que exige nosso compromisso como parte do processo? Como ser livre de nós mesmos numa liberdade irrealizável? Como ser leal à expectativa do público num sistema comercial onde o cliente é, ao mesmo tempo, investigado e anunciante do veículo que noticia, e ainda, quem decide pelo contrato de total interesse do veículo? Como ser desleal às nossas próprias deduções, certezas, influências subliminares e razões inconscientes? Como ser fiel à democracia se o “kratos” (poder) do “demo” (povo) está concentrado nas mãos do mercado e de governos em favor de si próprios, responsáveis pela gestão de demasiadas necessidades e desejos diversos, mas que têm como prioridade interesses e políticas partidárias, desconstruindo assim o mito da democracia? Em suma: como afirmar que um pássaro é livre se este já nasce acorrentado à sua natureza de pássaro?

A imparcialidade jornalística tão assegurada pelos veículos de imprensa não passa de uma narrativa falaciosa, uma fraude conveniente, assim como defender a existência de poder do povo nos modelos de democracia atuais, pois nestas há algo insustentável: a supervalorização da igualdade num universo humano de discrepantes diferenças individuais, aprisionamentos, interesses e desigualdades em todos os aspectos sociais, potenciais, culturais e biológicos. É neste ponto que a imparcialidade e a democracia dão-se as mãos, unidas pela latente impossibilidade de existir, e sustentadas pelas metanarrativas do tripé que não abre mão de estar no poder.

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