Inflação do Eu

Por que a grande maioria dos executivos acredita que sua empresa tem maiores probabilidades de êxito do que outras do mesmo segmento? Qual a razão de um candidato quase sempre ter a certeza de que sua coligação sairá vencedora na eleição? Por que um jogador geralmente entra em campo convicto de que seu time conquistará a vitória? Seria porque eles fazem parte de tais grupos? Naturalmente a maior parte se equivoca. Empresas sem êxito, partidos açoitados nas urnas e equipes goleadas são resultados comuns após a confiança no sucesso. Acreditar no desejo de que seja verdade e depois correr como uma lebre produzindo justificativas para argumentar o insucesso, até então parece ser a melhor opção. Para muitos, a única. É a inflação do eu!

Indivíduos que acreditam merecer milhões após a demissão da empresa, quando na verdade foi a companhia que perdeu milhões enquanto eram diretores. Amigos que consomem álcool diariamente, mas se dizem bebedores sociais. Peritos em enumerar falhas alheias, mas que vivem isolados da vida social por dificuldade de se relacionar. Advogados que acreditam ter feito um trabalho esplêndido quando seus clientes foram condenados à pena máxima. Até que ponto observamos a nós mesmos?

Num teste ocorrido em 1959 no hospital Ypsilanti State, no Michigan, três pacientes tinham a certeza de que eram Jesus Cristo. O coordenador do teste confrontou os três para saber como reagiriam às essas convicções debatendo em grupo. Um reconheceu não ser Cristo após ficar assombrado com a alucinação dos outros. Os demais disseram que os outros é que estavam loucos, já que dois tinham de estar errados. Mesmo assim, ambos resistiram à realidade em detrimento do desvario.

Todos temos um lado cientista e um advogado. O primeiro reúne provas evidentes. O segundo primeiramente cria a narrativa visando convencer os outros, para depois escavar evidências a favor de sua tese (e contra as opostas). Não se trata de fatos, mas das conclusões que inconscientemente preferimos, e conscientemente acreditamos.

Querer acreditar, buscar a felicidade através de alegações irracionais e defender o ego. Três projetos da mente humana que, quanto mais inapta, mais tende de maneira consciente a criar convicções que seguem na direção “da crença para a evidência”, e não o contrário. Em outras palavras, na luta entre o cientista e advogado apaixonado, é o segundo que costuma vencer, mesmo munido de ilusões. O ser humano realmente superestima sua capacidade de resistir a sua capacidade de superestimar sua capacidade.

Rodrigo Batalha é autor da Ed. Saraiva, palestrante e consultor comportamental