Liderança no Brasil antes e pós Lava Jato

O poder é um camaleão ao contrário: todos tomam sua cor. Com esse axioma latejante no inconsciente, o brasileiro manteve intocável seu conceito de liderança nos últimos séculos. O maior dos predicados de um líder, nutrido até então, de acordo com esse conceito, é a habilidade das boas relações com o político camaleão. Por que razão, se, para ser bem-sucedida, uma empresa tem que nascer, evoluir e se consolidar através de produto e gestão?

Os mecanismos velados que ululam por trás da cultura de que um líder empresarial deve trazer tais relações com agentes políticos, todos sabem quais são: contratos, superfaturamentos, caixa 2 e propina. Esse tipo de líder é exatamente como um partido político: um eufemismo elegante para poupar o homem do vexame de pensar.

Quem melhor descreveu esse universo foi Groucho Marx, que disse que “a política é a arte de procurar problemas, encontra-los, diagnosticá-los de forma incorreta e depois aplicar mal o remédio errado”. Dúvida nenhuma de que os gestores das empresas que acreditam ser essencial a libertinagem com o Estado, estão entre tais remédios (placebos).

Ora, a Lava Jato nos mostrou como funciona a mente desses ‘grandes líderes’, que antes da operação até (pasme) ministravam palestras sobre liderança, enaltecendo valores como paixão e resiliência. O público aplaudia contente aquele teatro demagógico dos hoje sabidos criminosos. Natural, pois ignorar a própria ignorância é a doença do ignorante.

Odebrecht, OAS, Camargo Correa, JBS, Queiroz Galvão, Engevix, Mendes Júnior, Sete Brasil e outras tantas demitiram quase 1 milhão de pessoas após o escândalo. Foi isso que ocasionou as boas relações com o Estado, além de um rombo de quase 100 bilhões nos cofres públicos. Groucho não conhecia o Brasil.

Prestar consultoria para empresas é constatar a inépcia técnica, organizacional e de gestão de pessoas de grande parte dos executivos, muito hábeis em negociatas, charutos, parlamentares e taninos, e um zero à esquerda em quase todo o resto. Pena de mim não precisava, ali onde eu chorei qualquer um chorava…

Em contrapartida, o que dizer da Apple, companhia que estabeleceu uma reputação única na indústria de eletrônicos de consumo, e hoje é a empresa mais admirada nos EUA? Focada em competência, inovação, criatividade e alto desempenho, a gigante de Cupertino se tornou a primeira companhia norte-americana a superar a marca de US$ 800 bilhões em valor de mercado. Alguém ousaria dizer que Steve Jobs e Tim Cook passavam os dias feito cadelas no cio, de quatro para políticos corruptos? Que conjectura de liderança é essa que vangloria a incompetência intrínseca ao caráter depravado e à incapacidade de liderar?

Gustavo Franco dizia que é fortíssimo no Brasil esse DNA rentista, propenso ao extrativismo e avesso ao suor, ao individualismo e à produtividade. Vou além. A liderança cultivada por aqui e que engloba as relações espúrias entre empresas e Estado nas esferas federal, estadual e municipal, só prova que subdesenvolvimento não se improvisa, é uma obra de décadas.

O exemplo fez brotar gerações de brasileiros médios, que, ao invés de empreender, raciocinam com a mesma astúcia de um mamão papaia. Para estes, o grande lance é passar em concurso público, ocupar cargo comissionado, se dar bem na Rouanet, fechar contrato com algum órgão ou ser nomeado para função gratificada. Se os úberes do Estado são o desejo ardente do líder mambembe, quem banca o Estado?

Quem põe leite nas tetas são os que praticam gestão econômica competente, inovação, tomam decisões duras, usam a criatividade, incitam a transpiração coletiva, a excelência, e aceitam a competição como mola propulsora do capitalismo. Sim, há inúmeros deles pelo Brasil. São micro, pequenos, médios e grandes empresários de atitude; verdadeiros líderes que se negam a cevar relações políticas de calcinha na mão e a passar o dia dando like em fanpage de deputado e senador. Os demais, amantes da política enfadonha que em geral não dispensam a oportunidade de figurar nas derrocadas colunas sociais, quando os escutamos falar sobre o amor que têm ao Brasil, sabemos que estão ganhando bem para isso.

O Brasil só dará certo quando superar um traço de caráter irresponsável de seus pseudo líderes, que levou o país a parecer ingovernável. Quando parar de assistir televisão e se desinformar pelos jornais. Quando tiver personalidade e não mais confundir bandidos com gestores; e quando adotar a ideologia de Churchil, que dizia ser um homem com gostos muito simples: facilmente satisfeito com o melhor.

Enquanto isso não acontece, Alexis de Tocqueville nos lembra que ‘é preciso que os governantes se apliquem em dar aos homens esse gosto pelo futuro e que, sem o dizer, ensinem a cada dia, praticamente, aos cidadãos, que a riqueza, o renome, o poder, são o preço do trabalho, que os grandes triunfos se encontram situados ao cabo dos longos desejos e que nada se obtém de durável senão aquilo que se adquire com dificuldade’.